Trigésimo oitavo
ou Sobre a atenção
Do rebento…
Há sempre muito a ser feito. Oceanos vêm e vão, e nós, humanos, pequenos, muitos, seguimos no movimento também. Dia desses, em uma das praias de Auckland, por acaso encontramos com remadores que estavam ali, na areia, descansando um pouco antes de voltarem à água. Por acaso, também — ou por karma —, quem conduzia o catamarã era uma das pessoas que conheci durante a competição da semana passada, aquela na qual fui voluntário. Notando a curiosidade de Martim, que desembestou na areia atrás das canoas, ela entregou a ele um objeto que desde recém-nascido ele conhece: um remo.
As canoas eram do clube de waka ama, canoa polinésia, da Universidade de Auckland, embora Lara, que conduzia o catamarã, estivesse ali como representante da federação nacional. Martim não pensou meia vez; tomou o remo na mão e, dizendo “qué remar!”, fez com que eu o embarcasse na canoa. Ainda na areia, claro, mas ali estava: na beira do Pacífico, na praia de Mission Bay, um menino de nem ano e meio andando na canoa com um remo em mãos.
Deve fazer quase um ano que Martim fala. Começou com água, depois outras palavras — lâmpada, tampa, até falar, atualmente, de tudo um pouco. Em português, inglês e te reo Maori. Por exemplo, waka. E Auckland. E Aotearoa. E remo. E “qué vê água fervendo” quando fazemos café, ou, quase sempre, “qué vê avião” ou “qué vê helipóptero” ou “qué vê motorhome”, porque volta e meia um motorhome estaciona na rua aqui de casa. Em Brasília, alguns meses atrás, Martim chegou a falar Burle Marx, mas não é um vocábulo com tanta utilidade assim.
Há muita atenção na atenção de Martim. Nos ouvidos, principalmente, mas muito nos olhos e no tato e no movimento e na risada de se entender no meio do mundo, percebendo o mundo que se abre aos poucos. Ontem, domingo aqui, fizemos uma caminhada de dia inteiro pela cidade, desde o trilho do trem, passando por estuários, pontes, mangues, trilhas no meio do mato até chegarmos, no fim do dia, em um campo de golfe. Enquanto Raquel e eu tomávamos uma cerveja para descansar, Martim se pirulitou pelo lugar, indo parar em um carrinho de golfe recém-estacionado — ele, aliás, sabe falar “campo de golfe”. E aprendeu, poucos minutos depois, a dizer “ganhei bola de golfe!”, porque, de fato, o golfista que saiu do carrinho deu a ele uma das bolas que trazia do jogo. Meu filho, nem um ano e meio, acho que foi o responsável por me fazer ver, aos quarenta, uma bola de golfe pela primeira vez.
O mundo se descortina aos poucos.
… ao corpo.
Há muito a se descobrir do próprio corpo, também. Sábado consegui, pela primeira vez desde que saí do Brasil, remar com um clube de waka — Ocean Blue é o nome, e ali na canoa já percebi o que percebi em outros clubes de canoa pelo Brasil, afora o meu, de Natal — Surf Sail, o nome.
Percebi que cada canoa, cada grupo, cada clube, cada estilo de remada, moderno ou ancestral, é diferente, e o corpo, os braços, o tronco, as mãos, a respiração e o remo devem, sendo sempre os mesmos, aprender a ser diferentes. Para se adequar ao movimento daquela remada ali, que se está remando, e não daquela que se rema no lugar de onde se veio.
Nada muito drástico, mas o suficiente. Aqui, nessa primeira remada, notei o movimento do meu tronco muito menos movimentado do que o dos companheiros. E isso, na canoa, faz uma diferença danada, porque muda o balanço, o contrapeso, o ritmo de se jogar a canoa adiante não apenas com o movimento dos remos, mas com a cadência do próprio movimento…
No fim da terceira volta pela baía — a mesma baía em que, dias antes, Martim entrou na canoa —, meu ritmo já tinha melhorado, e o balanço do corpo já acompanhava um pouquinho mais de perto o da canoa inteira, já acostumada com a movimentação daqui. Exceto, claro, por um detalhe ou outro, que merecem mais atenção. O corpo, como já bem falou Marcel Mauss, há quase um século, é o primeiro instrumento do ser humano, e as técnicas do corpo são tantas quantos são os corpos e os grupos humanos que os utilizam.
Oceanos vêm e vão, eu dizia. E os corpos, em cada oceano, e, talvez, em cada ida e vinda, se fazem diferentes também.

