Trigésimo sexto
ou Sobre a terra, a colonização via traduções espúrias e o pouso num lugar tranquilo
O pouso…
Depois do almoço de domingo, feito e comido em casa, é como se a viagem tivesse, enfim, terminado. Chegados, finalmente, a Auckland, ainda que desde quarta-feira já estivéssemos aqui — primeiro, em Auckland mesmo, depois, de quinta a sábado, em uma região do norte da Nova Zelândia chamada Bay of Islands, onde estão Kerikeri, Paihia e Waitangi.
Lugares onde pousamos, onde nos hospedamos e onde, no século XIX, os primeiros grupos políticos Maori assinaram acordos de convivência e cooperação com a Coroa Britânica, respectivamente.
Acordos que, obviamente, como era de se esperar, não foram — e ainda não são muito bem — cumpridos pelos ocidentais.
Dia 6 de fevereiro marca o dia em que se assinou, em 1840, o Tratado de Waitangi — justamente o tratado que fundamenta a política institucional, e estatal, da Nova Zelândia desde então. E que, mais ou menos, reconhece uma série de direitos originários aos Maori, que já habitavam esta terra antes da chegada dos europeus.
Digo mais ou menos porque, como também era de se esperar, a potência colonial usou um estratagema bastante engenhoso, e bastante simples: na assinatura do tratado, duas versões do documento foram redigidas; uma em inglês, outra em te reo Maori, a língua do povo.
Mas, claro, a versão indígena não continha exatamente o que a versão inglesa descrevia e, na assinatura pelas lideranças locais, uma série de favorecimentos à Inglaterra passaram desapercebidos. Como, por exemplo, a ideia de que os Maori cediam a terra e a soberania sobre a terra à Coroa, em troca de… proteção? Talvez essa seja a história hegemônica, que consolidou parte do espírito neozelandês do século XIX até hoje.
Mas os Maori, hoje, já não engolem essa história — e talvez nunca tenham engolido, com a diferença de que, antes, a hegemonia europeia era mais acentuada na política e na sociedade. Não que não seja mais, mas agora se pode ver, como se vê no Brasil e em outras partes, um grande movimento de retomada — tanto de direitos quanto de terras. Aqui, em inglês, é o que chamam de land back, devolver as terras, a soberania no trato com a terra, o manejo da terra, a quem é tangata whenua: gente da terra.
Os Maori, que bem se entenda.
… e o ninho.
Hoje cedo fomos com Martim à nova creche. Espaço novo, equipe bem fornida e, o melhor de tudo, espaço e equipe tranquilos, calmos com as crianças, atentos aos movimentos mas nada diretivos. A pedagogia do lugar é pela autonomia dos pequenos, e o espaço é construído de acordo: móveis baixos e apetrechos manejáveis por mãos de crianças,uma área aberta com tanque de areia, escadas, móveis modulares pelos quais os pequenos sobem e descem e brincam.
Bom lugar. A coordenadora nem bem abriu a porta e Martim se pirulitou para o chão, foi direto a uns dos brinquedos e lá ficou tranquilo e sem sequer olhar pra trás. Depois conversou com a professora, depois com outras crianças, depois outros brinquedos, depois achou um chocalho e tocou um samba num canto do lugar. Enquanto isso, Raquel e eu ficamos uma hora, quase, sendo apresentados à creche pela coordenadora, e Martim lá, brincando e à vontade.
Ficamos à vontade também.
Agora, de fato, começa a vida aqui. E escrevo está newsletter no fim do domingo brasileiro, mas já no meio da segunda neozelandesa, do saguão da Universidade de Auckland, onde, oficialmente, Raquel e eu trabalhamos até o fim do ano.
Muitos domingos ainda, portanto.

